O cheiro da tinta

por MARCIO FLORESTAN

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O primeiro sinal de que a Copa do Mundo estava chegando não vinha da televisão; vinha do cheiro da tinta. Em alguma rua do bairro, apareciam homens carregando latas, pincéis e escadas. Não eram artistas, embora produzissem arte; não eram servidores públicos, embora executassem uma espécie de serviço cívico voluntário. Eram, simplesmente, vizinhos. Pintavam o asfalto, desenhavam bandeiras, esticavam fios de um poste a outro e pendiam bandeirinhas verdes e amarelas sobre quarteirões inteiros. Sem perceber, transformavam uma simples via urbana em território nacional. A rua da minha infância passava quatro anos esperando por aquele momento. O país também.A Copa não começava com o apito inicial; começava ali. No cheiro da tinta fresca, no barulho dos martelos, nas primeiras discussões acaloradas sobre a escalação. Nos álbuns de figurinhas que circulavam pelas escolas como se fossem moedas de uma economia paralela, nas janelas que ganhavam bandeiras e nos rádios que voltavam a ocupar lugar de honra sobre mesas, balcões e prateleiras. Houve um tempo em que o Brasil inteiro parecia preparar-se para uma festa da qual todos eram convidados. E era exatamente isso: uma festa, mas também algo mais.Os gregos tinham uma palavra bonita para designar a alma coletiva de um povo: ethos. Não sei se pensavam em futebol, mas certamente pensavam em algo parecido com aquilo que acontecia no Brasil a cada quatro anos. Se existe um fenômeno capaz de revelar parte do ethos brasileiro, poucos rivalizam com a Copa do Mundo. Porque a Copa nunca foi apenas futebol; foi memória transformada em pertencimento. Um dos raros momentos em que um país continental conseguiu olhar exatamente para a mesma direção.As gerações mais jovens enfrentam dificuldade para imaginar o que representava uma Copa nos tempos do rádio. Hoje a imagem chega instantaneamente; naquela época, era a voz que construía o espetáculo. Os narradores não descreviam partidas, erguiam catedrais de imaginação. Sua voz atravessava cozinhas, oficinas, fazendas, caminhões, bares e salas de estar. O Brasil aprendia a sonhar coletivamente através das ondas curtas. Milhões de brasileiros conheceram Pelé primeiro pelos ouvidos. O mesmo aconteceu com Garrincha, com Didi, com Vavá e com Zagallo. Antes de serem imagens, foram histórias; antes de serem ídolos, foram narrativas.Quando Didi recebia a bola, tinha-se a impressão de que o jogo diminuía a velocidade para consultá-lo. Quando Garrincha avançava pela ponta, os marcadores pareciam participar involuntariamente de uma brincadeira cujo final apenas ele conhecia — Garrincha não driblava adversários, convencia-os a seguir na direção errada. Pelé, por sua vez, parecia existir numa categoria própria. Não porque fosse perfeito — nenhum ser humano é —, mas porque realizava com naturalidade coisas que os demais sequer imaginavam tentar. Gérson enxergava espaços que ainda não existiam. Rivelino parecia chutar com a perna esquerda e com alguma cumplicidade secreta das leis da física. E Zagallo compreendia o futebol como poucos compreenderam qualquer ofício. Jogador campeão em 1958 e 1962, técnico campeão em 1970, coordenador campeão em 1994: sua biografia parece menos uma carreira esportiva e mais uma longa e íntima conversa com a história.O futebol brasileiro sempre pareceu mais próximo da música do que da matemática. Havia ritmo, improviso, harmonia. As Copas, aliás, possuíam sua própria trilha sonora. Muito antes dos algoritmos e das plataformas digitais, o país inteiro cantava as mesmas músicas. Primeiro veio A Taça do Mundo é Nossa, embalo da conquista que nos revelou ao mundo e que voltou a ecoar no bicampeonato no Chile em 1962. Depois vieram os acordes de Pra Frente Brasil, acompanhando a caminhada rumo ao tricampeonato de 1970. Não eram simples canções; eram a voz de um país celebrando a si mesmo. Durante algumas semanas, a mesma melodia saía das janelas dos apartamentos, dos alto-falantes das lojas, dos rádios de pilha e dos carros estacionados diante das casas. O Brasil cantava em coro.As Copas também produziam histórias que pareciam retiradas de um romance. Em 1962, após a conquista do bicampeonato no Chile, uma jovem cantora chamada Elza Soares entrou no vestiário da Seleção para celebrar a vitória e encontrou Garrincha. O encontro alteraria para sempre a vida de ambos. Até nisso as Copas pareciam maiores do que o futebol, misturando esporte, música, paixão, tragédia, glória e destino. Misturavam Brasil.Armando Nogueira compreendeu isso como poucos. Ao escrever sobre o tricampeonato mexicano, confessou que lhe faltavam palavras. E se faltavam palavras a Armando, é porque aquela Seleção de 1970 pertencia a uma categoria rara de acontecimentos que desafiam qualquer descrição. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivelino, Carlos Alberto… Não formavam apenas uma equipe, formavam uma espécie de constelação. A bola parecia obedecer a uma partitura invisível, onde cada passe encontrava seu destino como uma nota encontra a melodia. Foi o momento em que o futebol mais se aproximou da arte.Nem todas as lembranças, porém, vieram acompanhadas de taças. Há brasileiros que ainda recordam a derrota para a Itália em 1982 com a nitidez reservada às grandes dores. Aquele time de Zico, Sócrates, Falcão e Júnior demonstrou ao mundo que a beleza também pode sobreviver à derrota. Que o encantamento não depende do resultado final.Quando a vitória vinha, as comemorações refletiam a cura de velhos traumas. Nelson Rodrigues dizia que a Seleção de 1958 havia revelado o Brasil aos próprios brasileiros, curando-nos do “complexo de vira-lata”. Passamos a acreditar que podíamos ser os melhores do mundo. E, durante algum tempo, fomos. As ruas lotavam, as buzinas ecoavam madrugada adentro, os fogos riscavam o céu.Lembro-me perfeitamente da tensão elétrica na sala da nossa casa, na Rua Harpia, em Arapongas, no Paraná, durante a final de 1994. Quando Roberto Baggio caminhou em direção à bola para a cobrança do último pênalti, o silêncio tomou conta da sala. Não era apenas o silêncio da nossa casa; parecia o silêncio de um país continental inteiro, suspenso no ar. Meu irmão Thiago tinha 12 anos. Eu tinha 15. É uma idade em que ainda se acredita que certas alegrias serão eternas. Meu pai Irineu, minha mãe Malu e nós dois permanecíamos imóveis diante da televisão, sob o eco da narração exausta e transbordante de Galvão Bueno. Naquela tarde, a vida parecia simples: bastava que a bola não entrasse. Então veio o chute. A bola subiu. E, por um segundo, ninguém acreditou no que tinha acabado de acontecer.O abraço veio antes da consciência. Desabamos em uma catarse familiar instantânea, um emaranhado de quatro vozes que logo se jogou para fora de casa, unindo-se ao buzinaço que tomou a Avenida Arapongas, completamente entupida de gente e de uma alegria em profusão. Por algumas horas, o Brasil deixava de ser apenas um mapa; transformava-se numa comunidade viva de rostos, nomes e afetos.Sentimos saudade justamente disso. Não apenas dos títulos, dos craques ou das vitórias, mas daquele raro instante em que um país inteiro parecia bater no mesmo compasso. João Ubaldo Ribeiro provavelmente diria que o futebol era apenas um pretexto. E talvez fosse. O que realmente importava era o que acontecia ao redor dele: a rua pintada, o vizinho que surgia com uma televisão maior, a família reunida na sala, a criança vestindo pela primeira vez a camisa amarela, o radinho encostado ao ouvido e as discussões intermináveis sobre quem foi maior, Pelé ou Garrincha.Porque uma nação não é feita apenas de leis, instituições e fronteiras. Ela também é feita de lembranças compartilhadas, de histórias repetidas à mesa, de símbolos comuns e de emoções que atravessam gerações. Nelson Rodrigues encontrou na Seleção a cura da nossa alma; Armando Nogueira encontrou poesia; João Ubaldo encontrou um retrato do Brasil. Todos tinham razão. As Copas que vencemos pertencem à história do futebol, mas as ruas pintadas, os rádios e os televisores ligados, as canções cantadas em coro, os fogos atravessando a madrugada, a sala de casa em Arapongas e as memórias que carregamos até hoje pertencem à história sentimental do Brasil.Quem sabe esteja chegando a hora de recuperar um pouco desse espírito. De voltar a pintar as ruas, reunir os amigos diante da televisão e ensinar às crianças quem foram nossos gigantes. De ouvir antigas narrações, cantar velhas canções e lembrar que existe uma parte luminosa da nossa história que não pode ser esquecida. Porque um povo que perde suas memórias corre o risco de perder também a capacidade de imaginar o futuro. E o primeiro sinal de que essa capacidade continua viva dentro de nós continua sendo o mesmo de sempre: o cheiro da tinta.

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*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Foto: Mateus Fernandes| Agência Mural

Fonte: Ministério Público MT – MT

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