“Rei do Algodão” acusa grupo citado em venda de sentenças no STJ de golpe milionário em município de MT

publicidade

O Grupo Pupin, um dos maiores do agro mato-grossense e em recuperação judicial desde 2017, alega ter sido vítima de um esquema que lhe custou não apenas parte do patrimônio, mas também o controle sobre os negócios.

No centro da polêmica está o Grupo Fource (empresas Fource Consultoria Empresarial Ltda., Fource Participações Ltda. E Fource Agro S/A), atualmente denominada Midas Agro Investimentos S/A. O grupo é citado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no caso de venda de sentenças no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que veio à tona após o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.

A denúncia de golpe veio à tona por meio de uma petição incidental protocolada na 1ª Vara da Comarca de Campo Verde (a 139km de Cuiabá), em que José Pupin, conhecido como “Rei do Algodão”, e sua esposa Vera Lúcia Camargo Pupin, pedem a suspensão dos contratos firmados com o grupo econômico e da procuração pública que transferiu a administração de seus bens.

A família argumenta que foi levada a assinar compromissos em um momento de “extrema vulnerabilidade”. Além das dificuldades financeiras que culminaram na recuperação judicial, José Pupin enfrentava, entre 2018 e 2020, um tratamento contra o câncer, enquanto sua esposa já convivia com os efeitos do mal de Parkinson.

Segundo argumentam, esse cenário fragilizou ainda mais o núcleo que conduzia a empresa, abrindo espaço para a entrada de novos “parceiros” que prometiam soluções milagrosas.

Em setembro de 2020, representantes do Grupo Fource se aproximaram com a promessa de injetar capital, renegociar dívidas e trazer governança ao grupo. O acordo parecia oferecer o caminho da recuperação. Foi assinado, então, o “Instrumento Particular de Alienação de Bens Imóveis e Pagamentos de Credores e Outras Avenças”, que previa a constituição de Unidades Produtivas Isoladas (UPIs) para viabilizar a venda de fazendas do grupo e, assim, levantar recursos para os credores.

Poucos meses depois, em dezembro de 2020, um passo ainda mais drástico foi dado: José Pupin, sua esposa e filhos assinaram uma procuração pública que concedia aos sócios da Fource – Valdoir Slapak e Haroldo Augusto Filho -, poderes irrevogáveis e irretratáveis sobre o grupo. Com isso, os representantes da Fource/Midas passaram a deter “os mais amplos, gerais e ilimitados poderes” para gerir e alienar bens, assinar acordos e conduzir todo o patrimônio da família.

A confiança, porém, logo se transformou em desconfiança. Segundo os advogados do Grupo Pupin, ao invés de buscar a quitação das dívidas e a continuidade das atividades, a Fource/Midas teria assumido o controle do caixa e direcionado recursos para seu próprio benefício.

Ativos teriam sido onerados sem autorização judicial, operações realizadas sem transparência e créditos adquiridos pelo próprio grupo, o colocando ao mesmo tempo na posição de administrador e de credor. O resultado, segundo afirma a petição, foi o agravamento da crise e um patrimônio dilapidado.

Leia Também:  Atualizado: aberto na Fazenda Aymore, em Jaciara, o Plantio Nacional da Soja 23/24

Relatórios apresentados pelo Grupo Pupin corroboram parte das suspeitas ao apontar a participação da Fource/Midas em assembleias de credores como cessionária de créditos, com direito a voto, enquanto já conduzia a administração do Grupo Pupin. Para os autores da ação, trata-se de uma “fraude contratual, marcada pela violação da boa-fé e por um desvio de finalidade claro: maximizar os interesses da Fource/Midas em detrimento da empresa em recuperação”.

Na peça, a família Pupin afirma que acreditava estar garantindo a sobrevivência de seus negócios, mas a parceria se mostrou um golpe. “O que se apresentava como solução revelou-se um engodo”, diz trecho da petição.

Agora, o grupo busca na Justiça não apenas suspender os contratos e retomar o controle de seu patrimônio, mas também responsabilizar aqueles que, segundo afirmam, “usaram a própria vulnerabilidade dos recuperandos como alavanca para ampliar seus interesses econômicos”.

Venda de sentenças

O caso ganha contornos ainda mais graves pelo histórico do grupo econômico. O CNJ revelou, a partir da análise do celular do advogado Roberto Zampieri – assassinado em Cuiabá em 2023 -, que sócios da Fource aparecem em diálogos relacionados ao esquema de venda de decisões no STJ. Em uma das mensagens, Zampieri pede ao lobista Andresson Gonçalves “o documento do Haroldo”, identificado pelos investigadores como Haroldo Augusto Filho, um dos nomes à frente da Fource.

Na petição, a família Pupin cita a Operação Sisamnes, investigação da Polícia Federal que apura a compra de decisões judiciais no STJ e no Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Entre os investigados estão justamente os procuradores da procuração pública assinada em 2020, Valdoir Slapak e Haroldo Augusto Filho.

Conversas extraídas do celular de Zampieri mostram que o próprio Grupo Pupin chegou a ser mencionado em tratativas suspeitas. Em um dos diálogos, Valdoir pergunta: “E Pupin?”, ao que Zampieri responde: “Acabei de resolver agora, vai julgar na sessão do dia 28/9, e também resolvi com o Des. Sebastião. Tive que acomodar o filho dele”.

Além das acusações de corrupção e tráfico de influência, notícias recentes apontam ainda para um esquema de lavagem de capitais associado ao grupo, com uso de empresas de fachada e fundos de investimento para movimentar recursos milionários.

“Os contratos e a procuração foram utilizados como escudos de fraude, com o nítido escopo de transferir o patrimônio do Grupo Pupin para terceiros, em prejuízo dos credores e dos recuperandos, bem como da própria função social da empresa, porque tudo foi feito às escondidas, sem a devida transparência para com o juízo da recuperação judicial”, diz a ação.

Leia Também:  Infestação por berne causa bilhões em prejuízos à pecuária brasileira

No dia 31/07/2025, os advogados do Grupo Pupin emitiram uma Notificação Extrajudicial à Midas Agro e à Fource Consultoria, declarando a rescisão automática e de pleno direito do contrato. As empresas não responderam à notificação, mas continuam gerindo o patrimônio do devedor.

A defesa ainda exige prestação de contas completa e detalhada do período em que as empresas ficaram à frente da administração, sob pena de multa de R$ 1 milhão por dia, em caso de descumprimento.

“A ausência de prestação de contas configura violação aos deveres de boa-fé e transparência, podendo ensejar responsabilização civil e penal, razão pela qual pugna a este d. Juízo que determine a apresentação das contas de todo o período do mandato, sob pena de multa, que devem ser arbitradas em valores relevantes, não inferior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) por dia de atraso, considerando todo o volume dos ativos e dos passivos envolvidos no exercício do mandato, além de outras sanções que Vossa Excelência entender cabíveis.”

Por fim, os advogados Eumar Novacki e Raphael Vianna de Menezes, representantes da família Pupin, pedem ao juiz uma série de medidas para tentar anular os contratos assinados com a Fource/Midas, recuperar o controle do patrimônio e investigar a atuação do grupo:

– Aceitação do incidente dentro do processo de recuperação judicial.
– Suspensão imediata dos contratos firmados com a Fource/Midas (alienação de bens e promessa de aquisição societária), alegando fraude.
– Proibição de novos atos de venda ou oneração de bens do Grupo Pupin pela Fource/Midas.
– Cancelamento da procuração pública que deu poderes amplos a Valdoir Slapak e Haroldo Augusto Filho (ou, se não for possível, a suspensão dos efeitos dela).
– Reversão de atos patrimoniais já feitos, com o retorno dos bens ao Grupo Pupin.
– Prestação de contas detalhada pela Fource e pelos procuradores, com multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento.
– Apresentação dos contratos de cessão de créditos adquiridos pela Fource/Midas e coligadas, com valores discriminados.
– Confirmação dessas cessões junto aos antigos credores, com envio de comprovantes de recebimento.
– Comunicação oficial ao cartório que registrou a procuração, informando seu cancelamento ou suspensão.
– Inventário e avaliação de todos os bens do Grupo Pupin pela administradora judicial.
– Intimação da administradora judicial e do Ministério Público para acompanhar o caso.
– Ofício à CVM para identificar quem são os cotistas e beneficiários finais dos fundos de investimento ligados às operações da Fource/Midas.

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade